Artigo da semana
Não é fraqueza. É o peso de tudo o que ninguém conta.
Artigo da semana
O que os dados dizem e o que nós sabemos há muito tempo.
Num estudo europeu de 2025 realizado em 22 países, as mulheres aparecem com 71% de prevalência de burnout, contra 60% nos homens. Em Portugal, 55% das mulheres reportam stress elevado, 11 pontos percentuais acima dos homens. E 41,7% das portuguesas experienciaram no último ano sintomas de ansiedade, burnout ou depressão, face a 27% dos homens.
São números. Mas por trás de cada número há uma pessoa que acordou cansada antes de o dia começar. Que fez tudo o que estava na lista e ainda assim se sentiu a falhar. Que sorriu na reunião quando por dentro queria parar.
O burnout nas mulheres não aparece de repente. Constrói-se. Camada a camada. Em silêncio.
Trabalho com líderes há muitos anos. E há uma conversa que se repete: a mulher que esgota raramente pede ajuda antes de chegar ao limite. Porque aprendeu, desde cedo, que pedir ajuda é sinal de que não está a conseguir. E não conseguir não é opção.
A investigadora Becca Levy, de Yale, mostrou que quando interiorizamos mensagens negativas sobre as nossas próprias capacidades, quando acreditamos que não somos suficientes, o impacto na saúde mental é direto e mensurável. O problema não está nas mulheres. Está no que o sistema continua a exigir delas: perfeição profissional, presença familiar, disponibilidade emocional, aparência cuidada. Tudo ao mesmo tempo, sem margem para falhar.
Penso nisto muitas vezes quando falo com equipas. E a metáfora que uso em formação é a da panela de pressão: não é a temperatura que a rebenta. É a tampa fechada que não deixa sair o vapor. O burnout não é falta de força. É excesso de pressão sem saída.
A saída começa a aparecer quando conseguimos dar nome ao que estamos a sentir. Quando paramos de tratar o esgotamento como um problema individual e percebemos que é uma resposta racional a condições que não são sustentáveis.
As mulheres não precisam de ser mais resilientes. Precisam de sistemas, nas organizações, nas famílias, na sociedade, que parem de exigir tanto e reconhecer tão pouco.
Este tema não é novo para mim. Está no livro que acabo de lançar. Está nas formações que dou. Está nas conversas que tenho. E está, a partir de hoje, também aqui.
Nos últimos dias
Lançamento
Às Vezes, Mudar é Ficar
9 de Abril · Fnac do Chiado · Lisboa
Foi um daqueles momentos que não se preparam do todo. A Fátima Lopes esteve ao meu lado e fez uma apresentação tão profunda, tão cheia de amor pelo livro, que me apanhou completamente desprevenida. A sala encheu-se de uma energia que ainda estou a processar.
No final, li um texto que tinha escrito para todas as mulheres presentes. Pediram-me que o partilhasse. E naquele momento percebi: o livro já não é só meu.
Havia pessoas na sala que vieram só para estar um bocadinho comigo. Sem outro motivo. É uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer por nós.
Sétimo Livro · Lisboa · Fnac Chiado
Agenda
15 Abr
Lançamento · Às Vezes, Mudar é Ficar
Fnac NorteShopping · Porto · com Pedro Chagas Freitas · 18h30
25 Abr
Lançamento · Às Vezes, Mudar é Ficar
Feira do Livro da Ribeira Brava · Madeira
28–29 Abr
HR Week
Centro de Congressos de Lisboa
7–8 Mai
LabSummit
Coimbra
Esta semana recomendo
Livro
Burnout
Escrito por duas irmãs, explica porque as mulheres esgotam de forma diferente e como sair do ciclo. Rigoroso, humano e completamente necessário.
Filme
Tully
Uma mãe exausta, invisível para o mundo, que recebe a ajuda de uma inesperada ama noturna. Um retrato honesto e perturbador do esgotamento feminino.
Podcast
Botequim TSF · Mulheres e a Saúde Mental
Uma psiquiatra, uma psicóloga e uma humorista a falar de depressão, burnout e ansiedade, e de porque as mulheres são sistematicamente mais afetadas.
Quem vale a pena conhecer
Tânia Graça
Autora de Burnout, uma Pandemia, faz um trabalho rigoroso e acessível sobre saúde mental no trabalho, com foco nas desigualdades de género que os dados continuam a confirmar.