O tema desta semana
Há duas semanas escrevi aqui sobre a mentira piedosa do out of office. Toda a gente a conta, ninguém a cumpre. Hoje trago a irmã mais nova, que circula nas reuniões de administração há três anos: «a inteligência artificial vai libertar as tuas equipas do trabalho repetitivo e devolver-lhes tempo para o que importa.»
E começo por uma confissão, porque foi assim que combinámos fazer as coisas por aqui. Eu uso IA todos os dias. Preparo propostas, construo apresentações, respondo a emails, resumo documentos antes de reuniões. E vou mais longe: ensaio conversas difíceis antes de as ter, e peço-lhe que discorde de mim. Poupa-me horas verdadeiras, contáveis, todas as semanas. Queres saber quantas dessas horas cheguei a ver? Nenhuma. O espaço que a máquina abre de manhã está cheio antes do almoço. Mais um pedido, mais uma versão, mais um «já agora, aproveitas e…».
Se isto me acontece a mim, que trabalho nestes temas e escrevo sobre eles, imagino o que acontece a quem recebeu a ferramenta numa sexta-feira, sem manual e sem conversa. E não somos só nós os dois. Olha para os números.
A promessa por cumprir, em números
77%
dos utilizadores de IA dizem que as ferramentas aumentaram a carga de trabalho ou reduziram a sua produtividade
47%
não sabem como atingir os níveis de produtividade que agora se esperam deles
63%
dos trabalhadores em Portugal sofrem ou já sofreram de burnout
Fontes: ManpowerGroup · Global Talent Barometer 2026 · The Age of Adaptability
Os números confirmam o que sentimos: o tempo que a IA liberta não desaparece. Enche-se, antes de alguém decidir onde o investir. Chamam-lhe ganho de produtividade. Eu prefiro chamar-lhe dívida de expectativas: as máquinas aceleraram, as expectativas subiram atrás, e as pessoas continuam à velocidade das pessoas.
O tempo que a IA liberta não é teu por defeito. Alguém decide para onde ele vai. A pergunta é: quem?
A ferramenta está a cumprir a parte dela. A decisão que vem a seguir é que ninguém pode automatizar, e é inteiramente de liderança: o que fazemos com o tempo ganho? Se a resposta for «mais do mesmo», já sabemos como acaba. Se for «trabalho com mais qualidade, conversas com mais calma, espaço para pensar», a mesma tecnologia torna-se aquilo que prometeu ser.
Por isso, esta semana não te trago conclusões. Trago uma pergunta, e desta vez quero mesmo respostas: o que deixaste de fazer desde que usas IA?
Uma coisa concreta. Uma reunião que acabou, um relatório que morreu, uma tarefa que entregaste de vez à máquina e nunca mais olhaste para trás. Conta-me nos comentários. E se a resposta for «nada», conta-me na mesma, porque essa é a resposta mais importante de todas: significa que a ferramenta chegou, mas a decisão ainda não.
Queres ir mais longe? Escolhe esta semana, com a tua equipa, uma coisa que deixam de fazer. Só uma. Escreve-a aqui em baixo. Em Setembro venho cobrar. 😉
Nos últimos dias
Talk · NOS
A escuta que transforma
Uma sala com 120 pessoas, activas, dinâmicas, daquelas que respondem, perguntam e não deixam uma ideia passar sem a testar. Foi este o cenário da talk que desenhei para a equipa da NOS, com a comunicação ao centro e uma convicção logo no título: a escuta que transforma.
Porque falar, todos falamos. Escutar é outra conversa. E foi aí que começámos: pela diferença entre ouvir para responder e ouvir para compreender, que é onde a maioria das conversas se perde.
Passámos pelos temas que mais trabalho nesta área. Os 4 níveis de escuta de Otto Scharmer, e o degrau onde quase todos paramos sem dar por isso. A escuta activa de Carl Rogers, em que a presença genuína é condição, não técnica. O silêncio como ferramenta, o mais difícil de treinar numa sala com esta energia. As perguntas que abrem, em vez das que fecham. E a empatia como competência séria de comunicação: não serve para suavizar mensagens, serve para as fazer chegar.
E treinámos, claro, porque escutar não se aprende a ver slides. Com 120 pessoas assim, os exercícios a pares ganharam vida própria e as melhores conclusões vieram da sala, que é como eu gosto.
Obrigada à equipa da NOS pela entrega do primeiro ao último minuto. Saí com a certeza do costume reforçada: quando a escuta muda, a conversa muda. E quando a conversa muda, a equipa inteira muda.
Para consumir esta semana
Livro
Co-Intelligence
O professor de Wharton que melhor escreve sobre trabalhar com IA sem lhe entregar o volante. A tese é simples e alinhada com o tema desta semana: tratar a ferramenta como um colega a quem é preciso dar contexto, critérios e limites. Quem lidera equipas que já usam IA todos os dias encontra aqui o manual que faltou dar com a licença do software.
Para ver
In the Age of AI
Um documentário sério, disponível gratuitamente no YouTube, sobre o que a inteligência artificial está a fazer ao trabalho, à economia e ao poder. Sem histeria e sem deslumbramento, que é exactamente o equilíbrio de que esta conversa precisa. Fica a lição que atravessa esta edição: a tecnologia decide pouco. Quem decide é quem a usa.
Para ouvir
Hard Fork
Duas conversas por semana sobre o que está mesmo a acontecer na tecnologia, contadas com humor e espírito crítico. É a forma mais leve de acompanhar um tema pesado, e de chegar às reuniões a perceber do que se fala antes de decidir o que se faz.
Uma pessoa a conhecer
Karim Lakhani
Estuda há duas décadas o impacto da tecnologia nas organizações e é dele uma das frases mais certeiras desta era: a IA não substitui pessoas; pessoas que usam IA substituem pessoas que não usam. O trabalho dele ajuda a fazer a pergunta certa: não «que ferramenta compramos?», mas «que trabalho redesenhamos?».
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