O tema desta semana
Ninguém se esquece do primeiro dia. Dos acessos que ainda não funcionavam, do computador que demorou uma semana, do almoço em que não sabíamos onde nos sentar. E, sobretudo, ninguém se esquece de quem parou o que estava a fazer para dizer: anda, eu mostro-te.
Nas últimas semanas tenho ouvido o mesmo desabafo em conversas com colaboradores de empresas diferentes. Entraram, apresentaram-lhes a equipa, deram-lhes o computador e, sem ninguém o dizer por estas palavras, a mensagem foi clara: agora safa-te. E três meses depois, as mesmas organizações perguntam porque é que a pessoa ainda não entrega o que era esperado.
A cultura de uma empresa não se mede pelo manual de acolhimento. Mede-se pelo que acontece quando o colega novo pergunta uma coisa óbvia pela terceira vez.
E aqui há uma corrente antiga que ainda circula em demasiadas equipas: «se eu sofri para aprender, eles que sofram também.» Conheço-a bem. Está nos veteranos que respondem com meio parágrafo quando sabiam o capítulo inteiro. Está em quem guarda informação como quem guarda território, convencido de que ser indispensável é o mesmo que ser insubstituível. Não é. Quem retém informação para se sentir seguro não está a proteger o seu lugar; está a confessar que duvida dele.
Os números confirmam o que qualquer gestor de pessoas vê no terreno todos os dias, e são números para ler devagar.
O primeiro dia, em números
12%
das pessoas consideram que a sua empresa faz um bom trabalho de acolhimento
50%
pode chegar a rotatividade nos primeiros 18 meses, quando o acolhimento falha
82%
de melhoria na retenção quando o acolhimento é sólido e estruturado
Fontes: Gallup · SHRM · Brandon Hall Group
E eu percebo a tentação de arrumar o acolhimento na gaveta das coisas simpáticas, ao lado do bolo de aniversário e do postal de Natal. Mas não é disso que estamos a falar. Estamos a falar de gestão pura e dura: pedimos entrega a quem nunca recebeu nada. Queremos autonomia sem darmos contexto, resultados sem darmos ferramentas, camisola vestida sem alguma vez a termos entregado. E depois estranhamos que as pessoas saiam ao fim de poucos meses, quando nunca lhes demos uma razão real para ficarem.
Agora, a parte que me interessa mais, porque não depende de orçamentos nem de políticas novas: romper aquela corrente está ao alcance de qualquer pessoa, com ou sem cargo. Basta decidir que o que nos fizeram não é desculpa para o que fazemos. Eu sei que custa, sobretudo a quem aprendeu tudo sozinho. Mas tratar bem quem chega, mesmo quando nos trataram mal a nós, é das provas de maturidade mais baratas e mais visíveis que existem. E diz muito mais de nós do que do outro.
Entre o «bem-vindo» e o «safa-te» decide-se quase tudo: a confiança, a entrega e o tempo que a pessoa fica.
E deixo-te a pergunta com que eu própria fiquei enquanto escrevia esta edição: quem foi, para ti, o colega que apareceu quando ninguém te tinha explicado nada? Se te vier um nome à cabeça, talvez seja boa altura para lho dizer.
E esta semana, repara em quem chegou há pouco à tua equipa. Um café, uma explicação sem pressa, um «qualquer coisa, diz». Custa dez minutos e fica para sempre.
Bónus para subscritores
Esta edição traz um extra: o guia prático «Do bem-vindo ao safa-te», com um plano de acolhimento de 90 dias, uma checklist para a próxima contratação e sete gestos ao alcance de qualquer colega.
Nos últimos dias
Formação · Bosch
Comunicar por dentro
Nos últimos dias estive com a equipa da Bosch para uma formação de Comunicação Interna. E não podia ter calhado em melhor semana, porque comunicar por dentro é, no fundo, a forma mais estrutural de acolher: uma empresa onde a informação circula é uma empresa onde ninguém fica de fora.
Trabalhámos a comunicação como cultura, não como departamento. A diferença entre informar e comunicar, que é a diferença entre enviar e chegar. A clareza como forma de respeito. E a escuta, sempre a escuta, porque a comunicação interna não melhora quando a empresa fala mais; melhora quando a empresa ouve melhor.
Obrigada à equipa da Bosch Braga pela entrega e pelas perguntas certas. As empresas que comunicam bem por dentro raramente precisam de o anunciar por fora. Nota-se.
Para consumir esta semana
Livro
The Culture Code
Uma investigação sobre o que torna os grupos fortes, dos Navy SEALs à Pixar, com uma conclusão que atravessa esta edição: a pertença constrói-se com pequenos sinais repetidos de «estás seguro aqui». Leitura obrigatória para quem recebe gente nova e quer que ela fique.
Para ver
Ted Lasso
A masterclass mais improvável de acolhimento que a televisão já deu. Um treinador que chega sem conhecer as regras do jogo e transforma um balneário hostil à força de curiosidade, generosidade e biscoitos. Se já a viste, revê o primeiro episódio com os olhos desta edição.
Para ouvir
Dare to Lead
Conversas sobre coragem, vulnerabilidade e liderança com as pessoas que melhor estudam estes temas. Começa pelos episódios com Amy Edmondson e percebes porque é que as equipas onde é seguro perguntar são as que mais aprendem.
Uma pessoa a conhecer
Amy Edmondson
Foi ela que deu nome à segurança psicológica: a convicção partilhada de que ninguém é castigado por perguntar, errar ou pedir ajuda. Décadas de investigação para confirmar o que o teu primeiro dia já te tinha ensinado: onde é seguro não saber, aprende-se mais depressa.
Onde me podes encontrar
9 Set
The Shift, Lisboa
19 Set
Faz a Tua Mudança, Taguspark
24 Set
Happiness Camp, Porto
10 Out
Game Changers Forum, MEO Arena
Agenda completa
Obrigada pela confiança!