O tema desta semana
«Estou ausente até dia 24, sem acesso ao email.» Conheces a frase. Provavelmente já a escreveste. E provavelmente, minutos depois de a ativar, respondeste a três emails da praia, da piscina… É a nossa mentira piedosa nacional: escrevemos que não estamos, mas estamos sempre.
E o verão torna tudo mais evidente. Levaste o portátil para a praia, «só por precaução». Mas sê honesto: não foste tu que o levaste a ele. Foi ele que te levou a ti. O corpo chegou de férias; a cabeça ficou presa entre o Teams e a caixa de entrada.
Não estás sozinho nisto, e os números provam-no.
As férias que não desligam, em números
57%
dos trabalhadores verificam o email de trabalho durante as férias
15%
mantêm contacto diário com a equipa, mesmo em pleno período de descanso
6
semanas é quanto podem durar os benefícios das férias, mas só quando desligamos de facto
Fontes: Korn Ferry · Robert Half · investigação citada na Psychology Today
A pergunta interessante não é «porque é que espreitamos o email». É o que isso revela. Na maioria dos casos, revela a crença mais cara das nossas carreiras: a de que somos insubstituíveis. De que o trabalho para sem nós. De que aquela decisão, aquele cliente, aquele projeto não aguentam duas semanas.
Mas ser insubstituível não é um troféu. É um alerta. Uma equipa que não funciona sem o líder não é prova de um líder importante; é prova de um líder que não delegou, não preparou e não confiou. E há uma consequência ainda mais séria: quem lidera e responde a emails às 23h com os pés na areia está a dar formação à equipa inteira. Da pior que há. Está a ensinar, sem dizer uma palavra, que naquela casa ninguém desliga a sério.
A tua equipa aprende mais com o teu comportamento em Agosto do que com o teu discurso em Janeiro.
Se a tua equipa sobrevive sem ti em Agosto, parabéns. É sinal de que lideras bem.
Mas sejamos justos, porque nem tudo é escolha ou vaidade. Há pessoas que continuam ligadas porque, simplesmente, não se podem desligar. Empresas onde o conhecimento crítico vive todo na cabeça de uma pessoa, equipas dimensionadas ao milímetro, funções sem substituto previsto. Nesses casos, o email nas férias não é falta de disciplina; é o sintoma de uma organização que não criou alternativa. E aí a conversa muda de nível: se o negócio pára quando alguém tira férias, o problema não é dessa pessoa. É de quem construiu um sistema onde ela não pode faltar. Deixar as pessoas descansar não é um gesto de simpatia; é um dever de quem desenha as equipas.
Por isso, proponho-te que olhes para as férias como aquilo que elas realmente são: um teste à tua liderança e à tua organização. Delegar a sério, com contexto e critérios de decisão, não só tarefas. Preparar a ausência com antecedência, para que os imprevistos tenham dono antes de acontecerem. Definir o que é mesmo urgente e quem responde por isso. Garantir que nenhuma função depende de uma única pessoa, com conhecimento partilhado, substitutos definidos e equipas com folga suficiente para que o descanso de um não seja a emergência de todos. E depois, a parte mais difícil: confiar.
O descanso não é um privilégio nem um luxo; é uma necessidade biológica. É nas pausas que o cérebro recupera, consolida o que aprendeu e devolve a criatividade que os meses de correria foram gastando. Quem desliga de facto regressa com mais energia, mais foco e melhores decisões. Quem leva o escritório na bagagem regressa como foi: cansado, mas agora também frustrado, porque nem descansou nem trabalhou.
Esta semana, faz o teste: escreve o teu out of office e, pela primeira vez, cumpre-o à letra. Se a ideia te causar ansiedade, aí tens a melhor informação do ano sobre a tua forma de liderar. E uma excelente conversa para ter contigo à sombra.
Nos últimos dias
Formação · EY
Quatro módulos, um estádio e a comunicação empática ao centro
Foi assim a formação que levei à equipa da EY: quatro módulos de formação, um estádio de futebol como cenário e um fio condutor do primeiro ao último minuto, a comunicação empática.
E não podia haver palco melhor. Num estádio, tudo fala de equipa, de treino e de jogo coletivo. Ninguém ganha sozinho, ninguém defende sozinho e, quando a comunicação falha, perde a equipa inteira. Foi com esta imagem que trabalhámos, módulo a módulo, aquilo que sustenta qualquer equipa de alto rendimento: a forma como as pessoas falam umas com as outras.
Passámos pelas ferramentas que mais uso neste tema. A escuta ativa de Carl Rogers, que nos obriga a ouvir para compreender, e não para responder. A Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg, com os seus quatro passos: observar sem julgar, nomear o que sentimos, identificar a necessidade e fazer um pedido claro. O modelo SBI do Center for Creative Leadership, que transforma o feedback num relato concreto de situação, comportamento e impacto, em vez de um juízo sobre a pessoa. E a franqueza radical de Kim Scott, que nos lembra que dizer as coisas difíceis é uma forma de cuidar, desde que se diga com respeito.
E treinámos, porque é isso que defendo: comunicar com empatia não é suavizar a mensagem, é fazer chegar ao outro aquilo que ele precisa de ouvir, da forma que consegue receber. E isso não se aprende a ver slides. Treina-se, como tudo o que é importante.
Três pontos que concluímos juntos:
1.A empatia tem tanto de técnica como de treino. Não é um dom de nascença nem uma questão de personalidade. É uma competência que se desenvolve com método, prática e repetição, como qualquer atleta desenvolve as suas.
2.O problema raramente é a mensagem. É o momento e a forma. A maioria das conversas difíceis não corre mal pelo conteúdo. Corre mal porque chega tarde, sem preparação, ou embrulhada em julgamento.
3.As equipas que falam melhor decidem melhor. Onde a comunicação é clara e humana, os problemas aparecem mais cedo, os conflitos custam menos e a confiança deixa de ser discurso para passar a ser prática.
Obrigada à equipa da EY pela entrega, pela vontade e pelas perguntas que me fizeram pensar.
Para consumir esta semana
Livro
Rest
O livro que desmonta a ideia de que descansar é o contrário de trabalhar. Com ciência e histórias de grandes criadores, Pang mostra que o descanso deliberado é parte do trabalho bem feito, e que muitas das melhores ideias nascem exatamente quando paramos. Leitura perfeita para levar para a toalha, sem culpa.
Para ver
Severance
Uma empresa onde as pessoas separam cirurgicamente a memória do trabalho da memória da vida pessoal. É ficção, claro. Mas é impossível ver esta série sem pensar em quantas pessoas conhecemos que, sem cirurgia nenhuma, já vivem assim: presentes no escritório, ausentes de si próprias. Vista do verão, é também um lembrete: desligar não devia exigir um procedimento de ficção científica.
Para ouvir
WorkLife
O psicólogo organizacional que melhor traduz ciência em conversas que apetece ouvir. Episódios inteiros dedicados ao tédio no trabalho, à motivação e ao que faz as pessoas ficarem ou irem embora. Perfeito para uma caminhada de verão.
Uma pessoa a conhecer
Cal Newport
Um dos pensadores mais influentes sobre trabalho profundo e produtividade com cabeça. A tese do seu livro mais recente é uma provocação saudável para este verão: fazer menos coisas, a um ritmo natural, com obsessão pela qualidade. O oposto exato da caixa de entrada aberta na esplanada.