O tema desta semana
Agosto tem duas fotografias. Uma delas está em todo o lado: pés na areia, mesas com toldo, aquela luz que só existe nesta altura do ano. A outra quase nunca aparece: alguém à secretária, com três caixas de correio abertas, a resolver assuntos que não são seus, num escritório onde o ar condicionado faz mais barulho do que as pessoas.
Esta edição é para a segunda fotografia.
Toda a gente conhece quem fica. É quem apanha sempre a segunda quinzena porque não tem filhos em idade escolar, como se não ter filhos fosse o mesmo que não ter vida. É quem herda o dossier de três colegas e a responsabilidade de todos. É quem responde a perguntas que não domina, com informação a que não tem acesso, a clientes que nunca foram seus. E é, quase sempre, a mesma pessoa, ano após ano, porque as organizações descobrem muito depressa quem é que não sabe dizer que não.
A parte injusta chega depois. Em Setembro, a leitura da empresa é simples: esteve cá o mês todo, logo esteve descansado. E quem ficou regressa ao ritmo normal mais gasto do que quem esteve fora, sem sequer poder dizê-lo em voz alta, porque não teve férias para justificar o cansaço.
Não é uma impressão minha. É um padrão, e tem números.
O mês de quem não foi
51%
dos colaboradores substituem um colega ausente várias vezes por mês
40%
é o aumento dos pedidos de ausência no Verão face ao resto do ano
1em 5
adia as próprias férias por não haver quem lhe assegure o trabalho
Fontes: OTRS Group · HR Executive · Eagle Hill Consulting / Ipsos
Reparaste no último número? Há pessoas que não descansam porque ninguém as cobre. E há pessoas que não descansam porque estão a cobrir toda a gente. É a mesma falha de gestão vista de dois ângulos, e nenhum deles aparece no mapa de férias afixado na parede.
Porque o mapa de férias existe. Foi negociado, discutido, aprovado, e nalgumas empresas até tem cores. O mapa de cobertura não existe em lado nenhum. Combina-se em conversas de corredor, na véspera, com um «qualquer coisa é só ligares» que não é um plano, é um desejo. E depois estranhamos que Setembro comece com toda a gente exausta.
Quem fica não está a fazer um favor. Está a pagar o descanso dos outros com o seu.
E aqui está a parte que me interessa mesmo, porque não exige orçamento nem política nova. Exige atenção, que é a coisa mais barata e mais rara que um líder tem para dar. Três decisões que cabem numa semana de Agosto:
Dizer o nome. Em público, agora, não em Setembro numa reunião de balanço onde já não custa nada. Quem está a segurar a casa este mês merece ouvir que alguém reparou enquanto ainda está a segurar.
Marcar o fim e as prioridades. Cobertura sem data de fim transforma-se em função permanente. E cobertura sem prioridades escritas transforma-se em culpa, porque a pessoa tenta fazer tudo e falha em alguma coisa. Dizer com clareza o que fica em pausa até Setembro é um acto de protecção, não de desleixo.
Devolver. Quem cobriu Agosto tem prioridade nas datas de Dezembro. E quem regressa começa por retomar o que era seu, sem esperar que lhe peçam. Parece pequeno. É a diferença entre uma equipa onde as pessoas se protegem e uma equipa onde cada um trata da sua vida.
E se a pessoa que está a segurar tudo és tu, deixo-te duas frases que já vi mudar conversas inteiras: «Consigo fazer isso, e nesse caso o outro assunto fica para Setembro. Qual preferes primeiro?» e «Este mês estou a cobrir três pessoas. Preciso de saber o que é mesmo prioritário.» Nenhuma delas é uma recusa. As duas tornam visível uma escolha que, até ali, estavas a fazer sozinha e em silêncio.
Setembro vai chegar com a energia toda virada para quem volta bronzeado e cheio de histórias. Que chegue também com um obrigada para quem manteve a luz acesa.
E deixo-te a pergunta desta semana: quem é a pessoa que está a segurar a tua equipa este mês? Se te veio um nome à cabeça enquanto lias, escreve-lhe hoje. Uma mensagem curta chega. O que fica não é a mensagem, é ter reparado.
Nos últimos dias
Aulas · MBA da Happiness Business School
A pergunta que ninguém faz em voz alta
Estive com os alunos do MBA da Happiness Business School, em Gestão de Stress, Energia e Tempo. E ficou-me uma pergunta que caiu já perto do fim, quando as pessoas se sentem à vontade para dizer o que lhes custa mesmo.
Um aluno perguntou: «Como é que eu digo que não a um pedido que não é meu, sem passar por pouco disponível?»
Respondi-lhe o que trabalho sempre nestas sessões. O problema raramente está no pedido; está na resposta que damos por reflexo. Respondemos com disponibilidade quando devíamos responder com capacidade, e são coisas diferentes. Um pedido só se torna um compromisso quando alguém decide quando é que aquilo vai ser feito. Enquanto essa decisão não existe, o «sim» que damos é uma promessa vaga que vamos pagar de madrugada.
Por isso a resposta que treinamos não começa por «não». Começa por tornar visível a troca: «consigo, e nesse caso isto sai da lista desta semana; qual queres primeiro?» Deixa de ser uma recusa e passa a ser uma decisão partilhada. Quem pede fica com a informação que lhe faltava, e quem executa deixa de carregar sozinho uma escolha que nunca foi só sua.
Obrigada à turma pelas perguntas difíceis. São sempre as melhores.
Para consumir esta semana
Livro
The No Club
Quatro investigadoras juntaram-se para perceber porque é que o trabalho que ninguém quer cai sempre nas mesmas pessoas. Descobriram um padrão com nome, dados e consequências na carreira. Se és tu quem fica todos os anos, este livro explica-te porquê e o que fazer com isso.
Para ver
The Bear
Uma cozinha é o retrato mais honesto de qualquer equipa: alguém está sempre a segurar o serviço enquanto os outros não dão por nada. Vê com os olhos desta edição e repara em quem nunca sai do fogão. Há uma pessoa dessas em todas as empresas.
Para ouvir
WorkLife
Um psicólogo organizacional a desmontar o que realmente acontece dentro das equipas, com investigação e sentido de humor. Os episódios sobre generosidade no trabalho encaixam nesta edição como uma luva, sobretudo a parte em que dar demais começa a custar caro.
Uma pessoa a conhecer
Rob Cross
Passou vinte anos a mapear redes de colaboração dentro das organizações e chegou a uma conclusão que ninguém quer ouvir: uma minoria muito pequena de pessoas absorve a maior parte dos pedidos. São as mais competentes, as mais generosas e as primeiras a esgotar-se. Se lideras uma equipa, vale a pena descobrir quem são as tuas.
Onde me podes encontrar
12 Set
The Shift, Lisboa
19 Set
Faz a Tua Mudança, Taguspark
24 Set
Happiness Camp, Porto
10 Out
Game Changers Forum, MEO Arena