Artigo da semana
Liderar sem empatia tem um preço. E alguém está sempre a pagá-lo.
Há uma imagem que uso muitas vezes em formação: a de um barco com um furo pequeno. Ninguém o vê logo. A água entra devagar. E um dia, quando alguém finalmente olha para o fundo, já não é um furo. É uma inundação.
É assim que funciona a liderança sem empatia. Não destrói de um dia para o outro. Vai corroendo a confiança, a energia, o sentido de pertença, até que alguém sai pela porta e mais ninguém percebe bem porquê.
Os números de 2025 são claros:
400B€
Perdidos na Europa por falta de envolvimento
Gallup, 2025
73%
Dos trabalhadores europeus sem envolvimento
Gallup, 2025
70%
Do envolvimento da equipa depende do líder
Gallup, 2025
A Europa tem os números de envolvimento mais baixos do mundo, há cinco anos seguidos. Um em cada oito trabalhadores está verdadeiramente comprometido com o que faz. Os restantes estão presentes. Mas já não estão lá.
Um líder que não ouve, que não reconhece, que gere pelo resultado e ignora o processo, não é necessariamente mau profissional. É, muitas vezes, alguém que nunca aprendeu que gerir pessoas exige outro músculo. E esse músculo tem nome: empatia.
Não é simpatia. Não é concordar com tudo. Não é ser bonzinho. É a capacidade de perceber o que o outro está a viver e de deixar que isso informe as suas decisões.
Lembro-me de uma sessão com uma equipa de gestão de uma empresa de média dimensão. Pedi a cada líder que escrevesse, numa folha, o nome de alguém da sua equipa de quem soubesse algo pessoal relevante, algo que não fosse sobre trabalho. Algo que mostrasse que aquela pessoa existia para além da função. A maioria ficou em silêncio. Não por falta de boa vontade. Por falta de hábito. Nunca tinham parado para perguntar.
Nas organizações onde trabalho, o padrão repete-se: as equipas mais produtivas não têm necessariamente os melhores processos. Têm os melhores líderes. Líderes que aparecem. Que perguntam. Que ouvem sem já estarem a preparar a resposta.
O furo no barco não desaparece sozinho. Mas um líder empático sabe vê-lo antes de ser tarde.
Nos últimos dias
Palco
Zome Summit 2026 · Punta Umbría
O Zome Summit, em Punta Umbría, foi daquelas experiências que me recarregam por completo. Estive em palco com consultores e líderes de uma das maiores redes imobiliárias de Portugal e foi uma manhã com muita energia, muita cumplicidade e momentos que não esquecerei tão cedo.
Levei um prego, um pato de borracha e uma folha de papel em branco. Três objectos simples para falar de transformação. O prego representa o desconforto que adiamos porque sair dói mais do que ficar. O pato representa o risco de fazer um pouco de tudo e não ser inevitável em nada. E a folha mostrou, de forma muito clara, que a comunicação não é o que dizemos. É o que o outro ouve. E esses são, quase sempre, dois mundos completamente diferentes.
Foram três dias incríveis! Toda a equipa da Zome está de parabéns. É um orgulho e um privilégio trabalhar com pessoas tão comprometidas.
A minha agenda
Estes são os próximos eventos onde vou estar. Se estiveres por perto, aparece, adoro conhecer quem me lê.
9 Abr
Lançamento de Às vezes mudar é ficar Novo livro
Fnac Chiado · Lisboa · 18h30
O meu sétimo livro e o mais autobiográfico de todos.
15 Abr
Lançamento de Às vezes mudar é ficar Novo livro
Fnac NorteShopping · Porto · 18h30
O meu sétimo livro e o mais autobiográfico de todos.
17 Abr
Happiness & Leadership Summit
Lisboa
22–23 Abr
Empack Porto 2026
Exponor · Porto
24 Abr
Feira do Livro da Ribeira Brava
Ilha da Madeira
28–29 Abr
HR Week
Centro de Congressos de Lisboa
Para consumir esta semana
Livro
Dare to Lead
Brené Brown passou anos a investigar vulnerabilidade e coragem. Neste livro, aplica essa investigação directamente à liderança. O argumento central é simples e incómodo: liderar com empatia exige coragem. Não é o caminho mais fácil. É o mais eficaz.
Filme
O Estagiário
Ben Whittaker tem 70 anos, uma vida inteira de experiência, e volta ao mundo do trabalho como estagiário numa startup liderada por uma jovem directora-geral. O que parece uma comédia ligeira é, na realidade, um retrato muito honesto sobre o que acontece quando alguém lidera com pressa demais e escuta de menos. E sobre o que muda quando alguém aparece, sem agenda, apenas a estar presente.
Podcast
How to Be a Better Human
Um dos episódios que mais recomendo em contexto de formação é o dedicado à empatia como prática e não como traço de personalidade. A ideia de que a empatia se exercita, e não se tem ou não se tem, é exactamente o que levo para as salas onde trabalho.
Alguém que vale mesmo a pena conhecer
Jamil Zaki
Jamil Zaki dirige o Laboratório de Neurociência Social de Stanford e dedica a sua investigação a uma ideia que desafia o senso comum: a empatia não é um traço fixo de personalidade. É uma competência que se desenvolve. O seu trabalho mostra que as pessoas que acreditam poder tornar-se mais empáticas, de facto tornam-se. Para quem trabalha com liderança, esta distinção muda tudo. Porque deixa de ser uma questão de “ele é assim” e passa a ser uma questão de escolha.