O tema desta semana
Falamos muito do tecto de vidro. Da barreira invisível que impede as mulheres de chegarem ao topo das organizações.
Mas há um obstáculo anterior, mais silencioso e, por isso, mais difícil de combater. Chama-se o degrau partido.
Um estudo recente do LinkedIn, que analisou tendências globais de emprego em 2026, é claro: as mulheres representam 44% da força de trabalho global, mas ocupam apenas 31% dos cargos de liderança. E o maior obstáculo não está na passagem para o topo. Está na primeira promoção para a gestão.
Para cada 100 homens promovidos ao primeiro cargo de chefia, significativamente menos mulheres fazem o mesmo percurso. Não porque não sejam capazes. Não porque não queiram. Mas porque o sistema, nos seus critérios, nas suas redes, nas suas culturas, ainda funciona de outra forma.
O degrau partido não é uma metáfora. É um padrão que se repete, organização após organização, sector após sector.
O que fazemos com isto?
A primeira coisa é ver. Muitas organizações ainda não analisam os seus dados de promoção por género. Não sabem quantas mulheres candidatas existem para cada cargo de chefia, nem quantas chegam ao final do processo. O que não se mede, não se muda.
A segunda é questionar os critérios. Quem decidimos que tem potencial de liderança? Com base em quê? Muitas vezes, o critério informal é a semelhança com quem já lidera. E quem já lidera é, na maior parte dos casos, um homem.
A terceira é criar condições reais, não apenas intenções. Programas de mentoria, de patrocínio, de visibilidade activa para mulheres com potencial. Não como quotas, mas como reconhecimento de que as condições de partida ainda não são as mesmas.
O degrau partido não se repara com discursos de Dia Internacional da Mulher. Repara-se com decisões concretas, tomadas por quem tem poder para as tomar, todos os dias do ano.
Nas tuas organizações, o degrau está inteiro?
Nos últimos dias
VGP · Um dia inteiro, no Estádio de Coimbra
Esta semana foi um dos dias de trabalho que mais me deram energia. Passei um dia completo com a equipa da VGP, no Estádio de Coimbra, numa formação que quis ser diferente.
Trabalhámos três temas que, na minha perspectiva, são inseparáveis: a comunicação interna, porque sem clareza na forma como nos falamos, nada funciona; a produtividade com o método GTD, porque equipas que trabalham com foco e confiança fazem mais com menos ruído; e a empatia, porque a forma como olhamos para quem está ao nosso lado muda o que acontece a seguir.
O que me ficou deste dia foi a generosidade desta equipa. A disponibilidade para questionar, para partilhar, para se deixar desconfortar um pouco. Isso é raro. E é exactamente isso que faz a diferença entre uma formação que se esquece e uma que muda alguma coisa.
Saí do Estádio de Coimbra convencida de que as organizações que investem nas suas pessoas não o fazem por obrigação. Fazem-no porque perceberam que é aí que está tudo.
Para consumir esta semana
Livro
Lean In
Continua a ser uma das leituras mais honestas sobre os obstáculos que as mulheres enfrentam nas organizações, incluindo os que vêm de dentro. Imperfeito como todos os livros que tocam em temas complexos, mas necessário. E mais actual do que gostaríamos que fosse.
Documentário
Miss Representation
Ainda hoje perturbador. Analisa como os media moldam a percepção do papel da mulher na sociedade e nas posições de poder. Para ver e pensar. E para perceber que o degrau partido não começa nas organizações. Começa muito antes.
Podcast
How to Be a Girl
Uma perspectiva diferente e inesperada sobre identidade, género e o que significa crescer num mundo com expectativas muito definidas. Não é sobre liderança no sentido tradicional, mas é sobre tudo o que está por baixo dela. Uma das melhores surpresas que tive nos últimos tempos.
Alguém que vale mesmo a pena conhecer
Mary Barra
Mary Barra entrou na General Motors aos 18 anos como inspectora de qualidade e tornou-se a primeira mulher a liderar uma das maiores fabricantes automóveis do mundo. O que a torna relevante para esta edição não é só o percurso, é a forma como fala dele: sem dramatismo, sem vitimismo, com uma clareza sobre o que é preciso mudar nas organizações que poucas pessoas com o seu poder têm a coragem de dizer em voz alta.
Na minha agenda
Maio
27 Mai
Game Changers Forum, Cidadela de Cascais
30 Mai
Feira do Livro de Lisboa
31 Mai
Human First, Lisboa
Junho
13 Jun
Feira do Livro de Lisboa
19 Jun
DDC Samsys, Porto
26 Jun
Academia Rock In Rio, Lisboa
Julho
1 e 2 Jul
QSP Summit, Porto
Setembro
9 Set
The Shift, Lisboa