O tema desta semana
Tenho pensado muito numa conta que nunca bate certo. Reparo que partilhamos as vitórias com uma generosidade enorme, o projeto que ganhámos, o palco onde subimos, o número que finalmente fechou, e guardamos as falhas como se fossem um segredo de que temos vergonha. Damos a ver o pódio e escondemos as vezes em que caímos a meio da corrida. E depois admiramo-nos por nos sentirmos tão sozinhos naquilo que custa.
Esta semana aconteceu-me uma coisa pequena que me ficou na cabeça. Uma pessoa que admiro contou-me, quase a pedir desculpa, que tinha perdido um cliente importante. Disse aquilo de cabeça baixa, como quem confessa um crime. E o que me apeteceu responder foi: mas eu também. Toda a gente também. A diferença é que ninguém o escreve em lado nenhum. Celebramos em público e fracassamos em privado, e assim ninguém aprende com o fracasso de ninguém.
Habituámo-nos a achar que mostrar uma falha nos torna mais pequenos. É curioso, porque comigo o que acontece é sempre o contrário. As pessoas de quem me sinto mais próxima não são as que nunca erram. São as que têm a coragem de me dizer que erraram. É na falha contada com verdade que eu reconheço alguém, não no currículo impecável.
O que não cabe no currículo de ninguém
Segundo o estudo da Gallup sobre o estado do trabalho no mundo, cerca de 40% das pessoas dizem ter sentido muito stress no dia anterior. Apenas 34% sentem que estão verdadeiramente a florescer. E só 20% se dizem realmente envolvidas com aquilo que fazem.
Fonte: Gallup, State of the Global Workplace 2026
Olho para estes números e penso sempre o mesmo. Por trás de cada perfil bonito que vês por aí há uma boa dose disto, de dúvida, de cansaço, de dias em que apetece desistir. Só que essa parte fica de fora da fotografia. E quando só vemos a parte que brilha, ficamos todos a comparar o nosso por dentro com o lado de fora dos outros. É uma conta que nunca podia bater certo.
Por isso queria deixar-te um convite, em vez de um conselho. Esta semana, partilha uma falha. Não tem de ser nas redes, nem com grande aparato. Pode ser numa reunião, num café, numa conversa com a tua equipa. Conta uma coisa que não correu bem e o que aprendeste com ela. Vais ver o que acontece do outro lado: alguém vai respirar fundo e dizer, finalmente, eu também.
Porque a confiança não nasce de mostrarmos que somos perfeitos. Nasce de mostrarmos que somos verdadeiros. E não há nada que aproxime mais duas pessoas do que descobrirem que tropeçaram exatamente na mesma pedra.
Nos últimos dias
Liderança empática, em três imagens
Sexta-feira passada estive com a Direção Comercial da Cofidis, numa reunião sobre liderança. No meio da conversa, percebi que três imagens muito simples explicavam, melhor do que qualquer modelo, o tipo de líder que ajuda as equipas a crescer. Deixo-te as três.
O prego. É o líder que só martela. Para ele, toda a gente é um problema à espera de uma pancada. Resolve à força, impõe, pressiona. E a equipa aprende depressa a esconder-se, porque ninguém quer levar com as marteladas. Funciona no curto prazo. Parte tudo no longo.
A folha. É a leveza que não parte. A folha dobra-se com o vento, mas não se rasga. É o líder que se adapta, que ouve, que muda de direção quando é preciso, sem perder a raiz. Parece frágil e é exatamente o contrário: é a flexibilidade que aguenta as tempestades que o prego nunca aguentaria.
O pato. É a calma que rema por baixo. À superfície, desliza sereno, sem alaridos. Por baixo da água, as patas não param. É o líder que protege a equipa do caos, que absorve a pressão sem a despejar nos outros, que transmite tranquilidade mesmo quando, por dentro, está a trabalhar o dobro.
Prego, folha e pato. A diferença entre a força que constrói e a força que parte está quase sempre em qual destas três escolhemos ser.
Para consumir esta semana
Livro
Black Box Thinking
Compara a aviação, que estuda cada erro ao pormenor para nunca o repetir, com os setores que escondem as falhas e por isso voltam a tropeçar nelas. Liga-se a tudo o que escrevo hoje: quem trata o erro como segredo fica preso a ele; quem o partilha transforma-o em aprendizagem.
Para ver
Divertida-Mente 2
Uma forma luminosa de perceber que todas as emoções têm o seu lugar, até a ansiedade. Vê-se com os filhos e fica connosco muito depois de acabar.
Para ouvir
We Can Do Hard Things
Conversas honestas sobre as coisas que toda a gente vive e quase ninguém conta em voz alta. Ouvi-lo é perceber que dizer “também passo por isto” não nos diminui, aproxima-nos. Exatamente o que defendo na edição de hoje.
Uma pessoa a conhecer
Tasha Eurich
Estuda a autoconsciência e descobriu uma coisa desconfortável: quase toda a gente acha que se conhece bem, mas pouquíssimas pessoas se veem mesmo com honestidade, falhas incluídas. Ensina-nos a olhar para dentro sem medo, que é o primeiro passo para conseguirmos partilhar lá fora o que não corre bem.
Onde me podes encontrar
Junho
30 Jun
Portugal Unlocked, Second Home · Lisboa
Julho
6 Jul
Ladies Who Talk Conference, NH Lisboa
7 Jul
The Shift · Sessão preparatória
Online · 1ª de 2
Agosto
7 Ago
The Shift · Sessão preparatória
Online · 2ª de 2
Setembro
9 Set
The Shift, o encontro presencial
Um dia ou dia um. Tu decides.
19 Set
Faz a Tua Mudança, Taguspark
9h