Artigo da semana
O que os números dizem e que os líderes não querem ouvir.
Não há um email a dizer “estou a chegar ao limite”. O que há é a pessoa que deixou de fazer perguntas nas reuniões. O colaborador que entrega tudo a tempo, mas com uma energia que foi desaparecendo aos poucos. O sorriso que já não chega aos olhos.
Continuamos a tratar o burnout como uma questão de gestão pessoal. Como se fosse falta de resiliência, de organização, de força de vontade. Mas os dados não deixam margem para essa interpretação.
66%
dos trabalhadores em risco de burnout em 2025
Modern Health / Forbes, 2025
54%
dos gestores intermédios com burnout elevado
High5Test, 2024–2025
3×
mais probabilidade de procurar novo emprego
Gallup Global Workplace, 2024
A Organização Mundial de Saúde reconhece o burnout como fenómeno ocupacional desde 2019. Não é fraqueza. É o que acontece quando os sistemas pedem mais do que as pessoas conseguem dar, durante tempo a mais, sem espaço para respirar.
A investigadora Christina Maslach, da Universidade de Berkeley, passou décadas a estudar este tema e identificou três dimensões que o definem:
As 3 dimensões do burnout · Modelo de Christina Maslach, Berkeley
Burnout
🔋
Exaustão
Esgotamento físico e emocional acumulado. A mais visível das três.
🔌
Distanciamento
A pessoa desliga-se emocionalmente. Não é má vontade. É o que a mente consegue fazer para se proteger.
📉
Ineficácia
A sensação de que o esforço já não chega a lado nenhum. Esta é a mais traiçoeira.
Os líderes não têm de curar o burnout. Têm de parar de o criar. E isso começa por fazer perguntas que a maioria nunca faz, porque implicam estar disposto a ouvir as respostas.
3 perguntas que mudam a cultura de uma equipa
1
Como te tens sentido, de verdade?
2
Há algo que te esteja a pesar e que eu possa não estar a ver?
3
O que precisarias de mim para que o teu trabalho fosse mais sustentável?
A terceira pergunta é a mais importante. E é a que quase ninguém faz. Porque obriga a mudar.
Saúde mental nas organizações não se resolve com um dia de meditação nem com uma política de bem-estar no manual de acolhimento. Resolve-se com líderes que aparecem. Que perguntam. Que ouvem. E que fazem alguma coisa com o que ouvem.
Nos últimos dias
Formação
CUF Tejo
Estive esta semana com líderes da CUF Tejo. Pessoas que passam o dia a cuidar de outros e que raramente param para perguntar quem cuida delas.
O que aconteceu na sala quando abrimos espaço para a honestidade foi daquelas coisas que não se esquecem. Havia líderes que nunca tinham dito em voz alta que estavam exaustos. Que sentiam que admiti-lo seria defraudar a equipa.
O maior ato de liderança que alguns fizeram nessa semana foi simplesmente levantar a mão e dizer “também eu”.
Em breve
Às Nove Book Club
Em Abril arranca o Às Nove Book Club. Um espaço mensal para ler e conversar sobre livros que nos fazem crescer, como líderes e como pessoas. Brevemente partilho todos os detalhes.
Onde me podes encontrar
A minha agenda
Estes são os próximos eventos onde vou estar. Se estiveres por perto, aparece — adoro conhecer quem me lê.
25–27 Mar
Zome Summit 2026
Punta Umbría, Espanha
12–13 Abr
Happiness & Leadership Summit Lisboa
X Create HUB · Lisboa
22–23 Abr
Empack Porto 2026
Porto
26 Abr
Feira do Livro da Ribeira Brava
Ribeira Brava · Madeira
28–29 Abr
HR Week Lisbon
HR x AI Teaming · Lisboa
7–8 Mai
LabSummit Coimbra
Coimbra
Para consumir esta semana
Livro
Burnout: The Secret to Unlocking the Stress Cycle
Duas irmãs, uma investigadora e a outra maestrina, que escreveram o livro mais honesto que li sobre esgotamento. Não falam de produtividade. Falam de biologia e de emoção, e de como o corpo precisa de completar o ciclo do stress para conseguir recuperar a sério. Devia ser leitura obrigatória em qualquer programa de liderança.
Filme
Ikiru
Um funcionário público que passa a vida inteira enterrado em papelada e rotina, e só quando recebe um diagnóstico terminal percebe o que perdeu. Não é um filme sobre burnout no sentido clínico. É sobre o que custa viver em piloto automático durante demasiado tempo. Lento, silencioso e daqueles que ficam.
Podcast
WorkLife with Adam Grant
Adam Grant é professor em Wharton e um dos investigadores de psicologia organizacional mais ouvidos do mundo. Este podcast é a forma mais acessível de entrar no seu pensamento. O episódio sobre burnout e o mito da resiliência é o que eu recomendaria a qualquer líder que esteja a gerir uma equipa sob pressão.
Alguém que vale mesmo a pena conhecer
Christina Maslach
Christina Maslach é a investigadora que definiu o conceito de burnout tal como o conhecemos hoje. Foi ela que criou o Maslach Burnout Inventory, o instrumento mais utilizado no mundo para medir o esgotamento profissional. Não é uma figura mediática nem está nas capas das revistas de negócios. É uma cientista que passou décadas a estudar o que acontece às pessoas dentro das organizações. Conhecê-la é perceber que o burnout não é uma moda. Tem décadas de investigação séria por trás.