A porta está aberta. A frase foi dita na reunião de equipa, foi repetida na avaliação de desempenho, e é verdade: quem lidera não está a mentir e recebe mesmo quem entra. O que acontece é que a porta se mantém aberta e ninguém a atravessa.
Disponibilidade não é o mesmo que segurança. Uma pessoa não bate à porta porque tem uma dificuldade; bate porque calcula que dizê-la em voz alta não lhe vai custar. Esse cálculo faz-se muito antes da conversa, e faz-se a partir do que viu acontecer a quem falou primeiro.
O que está em causa
Quando a porta aberta não é atravessada, a liderança perde o acesso ao que precisa de saber. Os problemas chegam tarde, já com consequências; os erros escondem-se em vez de se corrigirem; as pessoas que estão em dificuldade só o dizem quando já é irreversível. E quem lidera fica com a convicção sincera de que está tudo bem, porque ninguém lhe disse o contrário.
A empatia costuma ser tratada como traço de personalidade: ou se tem ou não se tem. É uma ideia confortável e é falsa: o que faz alguém sentir-se seguro a falar são comportamentos concretos, repetidos, que se aprendem e se treinam.
O que muda
- Quem lidera passa a criar as condições da conversa em vez de esperar por ela.
- Ouvir deixa de ser esperar pela vez de responder, e nota-se do outro lado.
- As más notícias chegam mais cedo, que é a única altura em que ainda servem para alguma coisa.
- Dar uma devolução difícil deixa de exigir escolher entre ser claro e ser humano.
- A equipa percebe, pela prática e não pelo discurso, o que acontece a quem levanta um problema.
Como funciona
Trabalha-se sobre as conversas que aquelas pessoas têm mesmo de ter e vão adiando. Cada participante traz uma situação real e treina-a em sala, com devolução directa dos colegas, porque a diferença entre saber e conseguir só aparece quando se diz em voz alta. A liderança sai com um retrato daquilo que os seus comportamentos estão a autorizar e a proibir, sem que nunca tenha sido essa a intenção.
Para quem é
- Quem chegou a chefia por mérito técnico e teve de aprender a liderar em andamento.
- Equipas onde os problemas só se sabem quando já rebentaram.
- Lideranças que querem ser exigentes sem que isso custe a confiança.
Se a sua porta está aberta e ninguém entra, a questão não é a porta. Conte-me o contexto da sua equipa e desenho a sessão a partir daí.