«Depois explico-te.» Quem diz isto não está a ser mal-intencionado. Está atrasado, sabe fazer aquilo em muito menos tempo do que demoraria a explicá-lo, e resolve. A tarefa fica feita, o prazo cumpre-se, e o «depois» nunca chega.
Repetida durante uns meses, esta frase produz uma organização inteira dependente de meia dúzia de pessoas que não podem adoecer nem sair. O conhecimento existe, mas mora todo dentro de cabeças, e nenhuma delas tem tempo para o passar a ninguém.
O que está em causa
Ser bom no trabalho e ser bom a ensinar o trabalho são duas competências diferentes, e as organizações costumam confundi-las. Nomeia-se mentor quem tem mais anos de casa, entrega-se-lhe alguém em cima da secretária, e espera-se que a transmissão aconteça por proximidade. Quase nunca acontece.
O custo é duplo. Quem entra demora muito mais tempo a ser autónomo do que devia, e vai construindo a ideia de que incomoda sempre que pergunta. Quem é sénior acumula interrupções, perde o próprio trabalho de vista, e conclui que a mentoria é um peso, o que garante que da próxima vez fará ainda menos.
O que muda
- Quem acompanha alguém passa a saber explicar o raciocínio e não apenas o procedimento.
- A autonomia deixa de ser esperada e passa a ser construída por passos combinados entre as duas partes.
- Perguntar deixa de ser um pedido de desculpas e passa a fazer parte do trabalho de quem chega.
- O acompanhamento cabe na semana de quem o faz, em vez de viver só das interrupções.
- O conhecimento crítico da equipa deixa de depender da disponibilidade de uma pessoa.
Como funciona
Parte-se do que já se passa naquela equipa: quem acompanha quem, o que se transmite bem, o que se perde sempre. Treina-se em sala a parte que ninguém treina: fazer a pergunta em vez de dar a resposta, deixar errar em segurança, dizer o que correu mal sem desfazer a confiança. E acerta-se o que é razoável esperar de um mentor, para que a função deixe de ser um favor mal definido.
Para quem é
- Equipas com entradas frequentes, ou a preparar uma vaga de contratações.
- Organizações onde há conhecimento concentrado em poucas pessoas.
- Séniores nomeados mentores sem nunca terem sido preparados para isso.
Se o «depois explico-te» já é hábito na sua equipa, é sinal de que está na altura. Conte-me como está montado o acompanhamento e desenho a sessão a partir daí.