O tema desta semana
Perguntei uma vez a uma cliente porque é que ela continuava, ao fim de tantos anos, na mesma empresa. Tinha tido propostas melhores, com mais dinheiro e títulos mais bonitos. Pensou durante uns segundos e disse-me uma frase que nunca mais esqueci: “porque aqui sei para que é que o meu trabalho serve.” Não falou no salário. Não falou na carreira. Falou naquilo a que costumo chamar salário emocional: o sentido.
Passamos a vida a tentar perceber como reter as pessoas, e olhamos quase sempre para os sítios errados. O salário, os benefícios, a fruta na copa, o ginásio. Tudo isso conta, mas nada disso prende. São razões para não sair, não são razões para ficar. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
As pessoas não se apegam a tabelas salariais. Apegam-se a sentir que aquilo que fazem importa, que alguém repara, que há um propósito por trás das tarefas. Ninguém larga o que ama. E quase ninguém ama uma folha de cálculo.
O sentido não nasce de grandes discursos sobre missão e visão pendurados na parede. Nasce de coisas pequenas e diárias. De um líder que explica o porquê e não só o quê. De ver o efeito do nosso trabalho na vida de alguém. De sentir que crescemos, que somos mais hoje do que éramos no ano passado. De pertencer a um sítio onde podemos ser quem somos sem pedir desculpa.
Quando isso existe, as pessoas ficam mesmo quando aparecem ofertas melhores. Quando isso falta, vão-se embora mesmo bem pagas, e muitas vezes nem sabem explicar porquê. Sabem só que deixaram de sentir.
A pergunta que deixo a quem lidera não é “como faço para que não saiam?”. É outra, mais funda: a minha equipa sabe para que serve o que faz todos os dias?
Porque a retenção não se compra. Cultiva-se. E começa no dia em que damos às pessoas uma razão para amar o que fazem, e não apenas para o tolerar.
Nos últimos dias
DDC Samsys · uma conversa sobre Agilidade
No passado dia 19, estive no DDC Samsys, no Porto, numa conversa com o Pedro Chagas Freitas sobre Agilidade. No meio da nossa conversa, lembrei-me do filme que, para mim, explica este tema melhor do que qualquer manual de gestão.
É de “A Vida é Bela”. Dentro de um campo de concentração, um soldado entra na barraca a gritar as regras brutais do lugar e pergunta quem fala alemão para traduzir. Guido, o pai, que mal sabe a língua, oferece-se na mesma. E, em vez de traduzir, inventa: transforma cada ordem cruel nas regras de um jogo, para que o filho não perceba onde está. “Quem chorar perde pontos. Quem perguntar pela mãe perde pontos. O primeiro a chegar aos mil ganha um tanque a sério.”
Não é uma fuga. É talvez o gesto de agilidade mais puro que conheço: adaptar-se, no momento e sob uma pressão que nem conseguimos imaginar, sem nunca perder de vista aquilo que mais importa. Guido não muda a realidade. Muda o significado da realidade, para proteger aquilo que ama.
É isto que tantas vezes confundimos nas organizações. Pensamos que ser ágil é reagir mais depressa, trocar de ferramenta, cobrir a parede de post-its. Mas a verdadeira agilidade é outra coisa. Deixo-te aquilo em que acredito, depois de mais de vinte anos a vê-la de perto:
O que acredito que é, verdadeiramente, a agilidade
i.
Não é correr mais depressa.
É saber para onde corremos e ter a coragem de mudar de direção quando o caminho deixa de fazer sentido.
ii.
Não é mudar tudo a toda a hora.
É saber aquilo que é inegociável, como os valores, as pessoas e o propósito, para podermos mudar o resto sem receio.
iii.
Não é a ausência de um plano.
É ter um plano firme e mãos livres, capazes de o largar quando a realidade o contraria.
iv.
Não se mede na velocidade.
Mede-se na clareza com que decidimos quando tudo à nossa volta é incerto.
v.
Não vale por si própria.
Só é verdadeira quando serve algo maior do que ela. Tal como em Guido, não nos adaptamos por adaptar. Adaptamo-nos para proteger aquilo que amamos.
Obrigada ao Pedro pela conversa, e a quem tornou aquele momento possível. Foi das que ficam.
Um obrigada que não cabe num número
Esta semana, o estudo Top 200 Creators da Favikon, que avalia e classifica criadores de conteúdo a nível nacional, colocou-me em primeiro lugar em Motivação e Desenvolvimento Pessoal em Portugal, e em 36.º no ranking geral do LinkedIn português. Confesso que olhei para aquilo duas vezes.
Mas a verdade é que um lugar destes nunca é de uma pessoa só. É de quem abre estes textos a uma segunda-feira de manhã, ainda com o café ao lado. De quem responde, de quem discorda, de quem partilha com um colega, de quem me escreve a dizer que uma frase chegou no dia certo. Eu escrevo para uma pessoa de cada vez. São vocês que transformam isto numa conversa.
Por isso, o obrigada de hoje é simples e é inteiro: obrigada por estarem deste lado. Continuo aqui, todas as semanas, por vocês e graças a vocês.
Para consumir esta semana
Livro
Reinventar as Organizações
Uma viagem por empresas que colocaram o propósito e as pessoas no centro, e prosperaram por causa disso. Dá esperança a quem acredita que se pode trabalhar de outra maneira.
Para ouvir
Drive
Sobre aquilo que de facto nos move no trabalho. Daniel Pink mostra que raramente é o dinheiro, e quase sempre a autonomia, o domínio e o propósito. Liga-se a tudo o que escrevo hoje.
Para ver
Start With Why
Uma palestra breve sobre a importância de começar pelo “porquê”. A ideia de que as pessoas não aderem ao que fazemos, mas à razão por que o fazemos.
Para fazer
A pergunta do porquê
Esta semana, na próxima tarefa que pedires a alguém da tua equipa, explica o porquê antes do quê. Repara na diferença com que a pessoa a recebe. O sentido começa aí.
Na minha agenda
Junho
22–30 Jun
Mentorias individuais · ESGOTADO
Julho
1 e 2 Jul
QSP Summit, Porto
6–30 Jul
Mentorias individuais · ESGOTADO
Agosto
10–31 Ago
Mentorias individuais
Setembro
1–15 Set
Mentorias individuais · últimas sessões
9 Set
The Shift, Lisboa
Um dia ou dia um. Tu decides.