O tema desta semana
Esta semana estive no Lab Summit, em Coimbra, a falar sobre empatia na liderança. E a conversa trouxe à superfície algo que aparece com frequência quando se fala de liderança.
As pessoas querem liderar de forma mais humana. Mas acham que isso não é treinável.
Há uma razão concreta para isso. A maioria das organizações avalia os seus líderes quase exclusivamente por resultados. O que é compreensível, uma empresa existe para criar valor, e os números importam. Mas quando o único critério de sucesso é o resultado final, o caminho para lá chegar fica invisível. As pessoas, as relações, a confiança: tudo isso deixa de contar.
O que ouvi repetidamente no Lab Summit foi: “sempre se fez assim e resultou.”
É a frase mais perigosa em qualquer organização.
Há uma crença muito instalada de que a empatia é um traço de personalidade. Ou se tem, ou não se tem. Ou se nasce com ela, ou não há nada a fazer.
A investigação diz o contrário: a empatia não é um traço fixo. Aprende-se. Desenvolve-se. Treina-se. O Center for Creative Leadership, que estudou mais de 6.700 líderes em 38 países, é claro neste ponto.
Segundo um estudo da Catalyst, líderes que demonstram empatia têm mais de 60% de probabilidade de melhorar a inovação, o envolvimento e a retenção das suas equipas. De acordo com a McKinsey, colaboradores que se sentem ouvidos têm cinco vezes mais probabilidade de trabalhar ao melhor do seu nível.
Não é soft skill. É estratégia.
Nas minhas formações uso o Mapa de Empatia de Harvard, uma ferramenta desenvolvida no contexto do design thinking que obriga os líderes a sair da sua perspectiva e a mapear, de forma concreta, o que a outra pessoa pensa, sente, vê, ouve, diz e faz. Não é um exercício teórico: é um momento de confronto com o quanto assumimos sem perguntar. O resultado é sempre o mesmo: a surpresa genuína de perceber o quanto não sabíamos sobre quem trabalha connosco todos os dias.
Outro modelo que uso é a Escada de Inferência, desenvolvida por Chris Argyris em Harvard. Mostra como os líderes, a partir de um facto simples, sobem degraus invisíveis, adicionando interpretações, pressupostos e conclusões, sem perceber que o estão a fazer. Em segundos, constroem uma narrativa completa sobre o que alguém “quis dizer” ou “costuma fazer”, e agem com base nisso. A distinção é simples, mas muda tudo: o julgamento diz “tenho razão”; a empatia pergunta “o que é que não estou a ver?”
O terceiro instrumento que uso é o The Empathy Pledge, um compromisso pessoal e colectivo que os líderes assumem no final das formações. Não é uma declaração de intenções vaga: é um conjunto de compromissos concretos, escritos na primeira pessoa, que definem como cada líder vai agir de forma diferente a partir daquele momento. Ouvir antes de concluir. Perguntar antes de julgar. Reconhecer quando não sabe.
O poder do Pledge está exactamente em tornar a empatia num acto de decisão, não apenas num sentimento.
Liderar com empatia não é ser simpático. Não é evitar conversas difíceis. Não é abdicar dos resultados. É perceber que as pessoas são o caminho para os resultados. Que uma equipa que se sente vista trabalha melhor. Que um líder que pergunta antes de concluir toma decisões mais certeiras.
E que isto, tudo, aprende-se, treina-se, pratica-se.
Nos últimos dias
Lab Summit · O Princípio de Peter e as pessoas nos cargos errados
No painel do Lab Summit, falámos sobre o que move as pessoas que mudam o mundo. Mas há um obstáculo que poucos reconhecem.
Promovemos quem performa bem hoje, sem perguntar se têm as aptidões certas para o que vem a seguir. O Princípio de Peter, formulado por Laurence Peter em 1969, explica exactamente isto: numa hierarquia, cada pessoa tende a ser promovida até ao nível da sua incompetência.
O resultado? Organizações cheias de pessoas competentes nos cargos errados. Não por má vontade. Por ausência de critério.
Mudar o mundo começa por perceber isto. E por ter a coragem de avaliar o potencial futuro, não apenas o desempenho presente.
Para consumir esta semana
Livro
The Empathy Edge
Maria Ross parte de uma premissa simples: a empatia não é um valor bonito para colocar numa apresentação. É uma vantagem competitiva. Com casos reais e dados concretos, mostra que as organizações que colocam as pessoas no centro têm melhores resultados, e explica porquê.
Documentário
The Empathy Effect
Explora como a empatia transforma não só relações pessoais mas organizações inteiras. Com casos reais de empresas que fizeram da empatia uma vantagem competitiva. Perturbador e necessário, no melhor sentido.
Podcast
WorkLife with Adam Grant
O episódio “The Science of Productive Disagreement” é uma das melhores conversas sobre como ouvir de verdade, mesmo quando discordamos. Adam Grant mostra, com investigação, que ouvir de verdade não é concordar. É querer perceber.
Alguém que vale mesmo a pena conhecer
Jamil Zaki
Jamil Zaki é o investigador que mais tem estudado a empatia como competência treinável. Director do Social Neuroscience Lab em Stanford, o seu livro The War for Kindness é uma referência científica sobre como a empatia se desenvolve, e porque é que as organizações que a cultivam têm resultados consistentemente superiores. É exactamente o argumento central desta edição, vindo da ciência.
Na minha agenda
Maio
15 Mai
Vozes Femininas do Empreendedorismo, Parque dos Poetas, Oeiras
17 Mai
Mulheres como Tu, Your Hotel & SPA, Alcobaça
20 Mai
IAPMEI, Webinar 360
27 Mai
Game Changers Forum, Cidadela de Cascais
31 Mai
Human First, Lisboa
Junho
19 Jun
DDC Samsys, Porto
26 Jun
Academia Rock In Rio, Lisboa
Julho
2 Jul
QSP Summit, Porto