Esta semana alguém me perguntou qual é a competência de liderança que mais falta nas organizações. Não precisei de pensar muito.
✦ Artigo da semana
A calma como
competência de liderança
Há uma frase que ouço com muita frequência nas organizações com que trabalho: “Não paro.” Dita com orgulho, quase como uma medalha. Como se a velocidade fosse sinónimo de valor e estar constantemente em movimento provasse que estamos a ser úteis.
Confundimos movimento com progresso, urgência com importância. O caos instalou-se nas organizações de uma forma subtil, não de repente. Foi-se acumulando: mais reuniões, mais notificações, mais decisões a tomar em menos tempo, mais responsabilidades a gerir em simultâneo. Hoje, muitos líderes vivem em modo reativo, a responder ao que acontece em vez de escolherem o que devem fazer.
As equipas não leem os relatórios. Leem as pessoas que os apresentam.
A calma não é passividade, não é indiferença, não é desligar. É uma competência de liderança, provavelmente uma das mais difíceis e das mais subvalorizadas. Um líder calmo não é aquele que não sente pressão; é aquele que, sob pressão, consegue ainda assim pensar com clareza, ouvir com atenção e decidir com intenção. Quem consegue fazer isso protege a equipa do pior inimigo que existe dentro de uma organização: o contágio emocional de quem está no topo.
As equipas leem os seus líderes antes de lerem qualquer email da Comunicação ou da Cultura Organizacional. Antes de qualquer reunião começar, as pessoas já decidiram como se vão sentir nela, com base na energia de quem está à frente. Um líder ansioso cria equipas ansiosas. Um líder calmo cria espaço para que as pessoas pensem, colaborem e apareçam com o seu melhor.
Três práticas para dias de caos
i.
Fazer uma pausa antes de reagir
Quando algo inesperado acontece, o primeiro impulso raramente é o melhor. Dez segundos de silêncio interno, uma respiração, um momento antes de abrir a boca ou de enviar a mensagem, mudam a qualidade da resposta. Não porque tornemos o problema mais pequeno, mas porque nos tornamos maiores do que ele.
ii.
Distinguir o urgente do importante
Nem tudo o que grita merece atenção imediata. A maior parte do caos que vivemos nas organizações é caos de percepção: coisas que parecem urgentes mas que, se esperassem trinta minutos, se resolveriam sozinhas ou revelariam não ser assim tão críticas. Perguntar “o que acontece se isto esperar uma hora?” é uma das perguntas mais libertadoras que conheço.
iii.
Proteger intencionalmente o tempo de pensar
A calma não se encontra, constrói-se. Um líder que não reserva tempo para pensar está permanentemente a gerir o presente sem nunca conseguir antecipar o futuro. Mesmo que sejam quinze minutos por dia, sem reuniões, sem telemóvel, sem a caixa de entrada aberta: só espaço para que o pensamento se organize.
A liderança começa no interior. Porque ninguém lidera melhor do que aquilo que é.
✦ Ideia da semana
Calma não é o oposto
de ambição
Há um equívoco que ouço muito: a ideia de que desacelerar é perder terreno. Que quem para, fica para trás. Mas os líderes que mais admiro não são os mais agitados. São os que sabem quando parar, exactamente porque querem ir longe. A calma não é resignação. É a base a partir da qual se constrói tudo o resto com mais intenção, mais clareza e muito menos desperdício de energia.
✦ Nos últimos dias
Formação em GTD com o
Grupo Jerónimo Martins
Há umas semanas estive com uma sala cheia de managers do Grupo Jerónimo Martins. Pessoas extraordinariamente capazes, habituadas a gerir equipas, operações, resultados e expectativas, tudo ao mesmo tempo e sempre com o relógio a correr. O tipo de sala que me energiza profundamente, porque a inteligência e a vontade de aprender estavam presentes desde o primeiro minuto.
O que me ficou dessa sala foi uma imagem que partilhámos e que ficou no ar: a sensação de ser um polvo. Oito braços a fazer oito coisas diferentes em simultâneo, cada tentáculo a puxar numa direcção, e a certeza crescente de que o tempo escorrega entre os dedos antes de conseguirmos segurar o que realmente importa. Não é falta de competência. É excesso de tudo sem um sistema que ajude a decidir o que fica e o que pode esperar.
Trabalhámos exactamente aí. Ensinei o grupo a capturar tudo o que ocupa espaço mental num sistema externo de confiança, a clarificar o que cada coisa realmente significa e o que exige, a organizar por contextos e prioridades reais, e a criar o hábito de rever esse sistema com regularidade. Quando a mente tem onde pousar o que está pendente, deixa de viver em alerta. E quando deixa de viver em alerta, consegue finalmente fazer aquilo para que foi feita: pensar.
Um dos tópicos que abordei e que foi mais destacado pelo grupo foi o conceito de mind like water. A ideia vem de Bruce Lee, que descrevia a água como o modelo perfeito de resposta: adaptável, precisa, sem resistência desnecessária. David Allen adoptou-a no método GTD para explicar o estado mental ideal de quem tem um sistema de confiança. Quando atiram uma pedra a um lago, a água responde com exactamente a força necessária, nem mais nem menos, e depois volta ao estado de repouso. É isso que um sistema bem construído faz pela mente: permite-lhe responder ao que é preciso, no momento em que é preciso, sem a sobrecarga permanente de quem sente que está sempre a falhar alguma coisa.
Saí de lá a lembrar-me de que as melhores equipas não são as que fazem mais. São as que sabem, com clareza, o que vale a pena fazer.
✦ Para consumir esta semana
Três escolhas sobre o mesmo tema: o que acontece quando perdemos o controlo de nós próprios, e o que ganhamos quando o recuperamos.
◆ Livro
Essentialism: The Disciplined Pursuit of Less
Uma das leituras mais transformadoras sobre foco, prioridades e o que acontece quando deixamos de tentar fazer tudo para começar a fazer o que realmente importa. McKeown não fala de produtividade. Fala de escolhas. E fala da coragem que precisamos de ter para dizer não ao que é bom, para poder dizer sim ao que é essencial.
▸ Filme
TÁR
Com Cate Blanchett num papel que não se esquece. Uma maestrina no topo do mundo que vai perdendo o controlo à medida que o caos interior se instala. Um filme sobre o que acontece quando um líder perde a capacidade de se ouvir. Desconfortável, preciso, e muito mais próximo do que gostaríamos de admitir.
◉ Podcast
The Tim Ferriss Show
Não pelo foco na produtividade, mas pelas conversas longas com pessoas que já passaram pelo caos e encontraram o caminho de volta a si próprias. O episódio com o ex-Navy SEAL Jocko Willink sobre disciplina e calma sob pressão é, em particular, uma das conversas mais densas e úteis que alguma vez ouvi.
✦ Alguém que vale mesmo a pena conhecer
Ryan Holiday
Autor · Filósofo do estoicismo moderno
Foi um livro do Ryan Holiday que me fez perceber que o estoicismo não é uma filosofia de resignação. É uma filosofia de acção. Ele bebe de Marco Aurélio, Séneca e Epiteto e traz essas ideias para situações que reconhecemos: a reunião que correu mal, a decisão que temos de tomar sob pressão, o dia em que tudo parece desmoronar. O seu Daily Stoic é o projecto que acompanho há mais tempo. Uma frase por dia. Raramente passa ao lado.
✦ Onde me podes encontrar
A minha agenda
Estes são os eventos públicos onde vou estar e onde podes estar também.
26 Abr
Feira do Livro da Ribeira Brava
Madeira