Arquivo da newsletter

Newsletter À Segunda

Edição Nº 1

O que escolhes ser quando ninguém está a ver?


A liderança que ninguém ensina

Liderar os outros é difícil. Liderar-se a si próprio é ainda mais. Há anos que trabalho com pessoas que têm todos os ingredientes para crescer e que ainda assim ficam presas no mesmo lugar. Não por falta de talento. Por falta de uma conversa honesta consigo próprias.

Existe um tipo de liderança que não aparece nos manuais. Não se aprende em MBAs. Não tem slides bonitos nem frameworks com quatro quadrantes. É a liderança empática. A que acontece quando alguém entra numa sala e consegue sentir o que está no ar antes de qualquer palavra ser dita. A que faz com que as pessoas queiram dar o seu melhor, não porque têm de o fazer, mas porque se sentem vistas.

Trabalho há anos com líderes de organizações muito diferentes entre si. E a pergunta que mais me fazem, a sós, longe das reuniões e das apresentações, é sempre qualquer coisa como: será que estou a fazer bem? Será que as pessoas me seguem de verdade, ou apenas porque têm de o fazer?

Essa pergunta é, em si mesma, um sinal de boa liderança. Quem nunca a faz é que me preocupa.

Há três perguntas que faço a mim própria todas as semanas. Partilho-as aqui porque transformaram a forma como apareço para as pessoas à minha volta.

1. Ouvi hoje para responder, ou ouvi para perceber?
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Quando ouvimos para responder, já estamos a formular o que vamos dizer enquanto o outro ainda fala. Quando ouvimos para perceber, estamos presentes. Curiosos. Abertos a ser surpreendidos. A segunda forma é muito mais difícil. E muito mais poderosa.

2. Hoje deixei espaço para que alguém fosse honesto comigo?
Os líderes que não criam segurança psicológica recebem apenas as notícias que as pessoas acham que querem ouvir. É confortável a curto prazo. É perigoso a médio prazo. A honestidade das equipas é um espelho. Se o espelho só mostra o que nos agrada, é porque alguém o distorceu.

3. As minhas ações hoje foram coerentes com o que digo valorizar?
A empatia não é só sentir o que o outro sente. É agir de forma consistente com essa consciência. Um líder pode dizer que valoriza o bem-estar da equipa e ao mesmo tempo enviar emails às 23h, cancelar reuniões individuais quando a agenda aperta, ou ignorar sinais claros de esgotamento. As pessoas não ouvem o que dizemos. Observam o que fazemos.

És um líder empático?

Responde com honestidade. Não há respostas certas nem erradas. Há apenas o que é verdade para ti, agora.

1. Quando alguém da tua equipa erra, qual é a tua primeira reação?

  • Perceber o que aconteceu antes de reagir
  • Corrigir de imediato para não perder tempo
  • Depende do erro e do momento

2. Com que frequência perguntas à tua equipa como se estão, de forma genuína?

  • Com regularidade, faz parte da minha forma de liderar
  • Raramente, há sempre assuntos mais urgentes
  • Faço, mas nem sempre sei o que fazer com a resposta

3. Quando tens uma opinião formada numa reunião, consegues mantê-la em aberto?

  • Sim, ouço até ao fim e às vezes mudo de ideia
  • Tenho dificuldade, a minha posição raramente muda
  • Depende do tema e de quem está a falar

4. As pessoas à tua volta trazem-te problemas antes de se tornarem crises?

  • Sim, há confiança para isso
  • Geralmente só soube depois, quando já era tarde
  • Alguns sim, outros preferem resolver sozinhos

5. Consegues identificar o que motiva cada pessoa da tua equipa individualmente?

  • Sim, conheço bem cada pessoa
  • Não tenho bem a certeza, nunca pensei nisso
  • Tenho uma ideia geral, mas poderia aprofundar mais

Palestra

Empatia no evento de Inteligência Emocional: da teoria à prática

Fui oradora no evento de Inteligência Emocional e subi ao palco para falar sobre empatia nas organizações. À minha frente, uma sala cheia de pessoas que trabalham com pessoas. E a pergunta que ficou no ar, antes mesmo de começar, era a mesma que me fazem sempre: mas a empatia é mesmo compatível com resultados?

É. E os números dizem-nos porquê.

Segundo o relatório do Gallup de 2024, apenas 23% dos trabalhadores a nível global se sentem verdadeiramente envolvidos com o seu trabalho. Os restantes 62% estão presentes, mas desligados. E 15% estão ativamente desmotivados. Num mundo em que pagamos às pessoas para pensarem, criarem e colaborarem, isto é um problema que nenhuma estratégia de negócio pode ignorar.

Mas o dado que mais me toca é este: apenas 39% dos colaboradores sentem que alguém no trabalho se preocupa genuinamente com eles como pessoas. Em 2020 eram 47%. Perdemos 8 pontos percentuais em quatro anos. Oito pontos de humanidade dentro das organizações.

As pessoas não saem das empresas. Saem de líderes que não as veem. Que não as ouvem. Que tratam o desempenho como um número e o bem-estar como um extra.

A empatia não é o oposto da exigência. É o que torna a exigência sustentável. Um líder empático não baixa o nível. Cria as condições para que as pessoas consigam chegar lá.

1. Aparece sem agenda

Uma vez por semana, fala com alguém da tua equipa sem agenda. Sem objetivos. Sem avaliação. Só para saber como está. Não o que produziu. Como está. Esta diferença, aparentemente pequena, muda a forma como as pessoas te percebem como líder e a confiança que depositam em ti.

2. Substitui o julgamento pela curiosidade

Quando algo corre mal, a primeira pergunta não deve ser “quem falhou?” mas “o que tornou isto difícil?”. Esta mudança de linguagem transforma a cultura de uma equipa. As pessoas deixam de esconder problemas e passam a trazê-los antes de se tornarem crises. A segurança psicológica não é um luxo. É o alicerce de qualquer equipa de alto desempenho.

3. Reconhece em público, corrige em privado

O reconhecimento é uma das formas mais diretas de dizer a alguém: eu vejo-te. Segundo dados da Vantage Circle, colaboradores que se sentem reconhecidos têm 45% menos probabilidade de sair nos dois anos seguintes. Não precisa de ser grande. Precisa de ser genuíno, específico e oportuno. Amor nas equipas constrói-se assim: num elogio dito a tempo, num obrigado que não precisava de ser dito, num momento em que o líder escolhe ver antes de exigir.

Podcast

Começámos a gravar o CruzamentoS, o podcast da Cruz Vermelha Portuguesa

Sou Host do CruzamentoS e estas primeiras gravações confirmaram o que eu já intuía: há pessoas extraordinárias a fazer coisas extraordinárias, em silêncio, todos os dias. Pessoas que escolheram tornar este mundo num lugar melhor para viver, sem esperar reconhecimento para isso.

Cada conversa tem sido um presente. Em breve partilho mais.

A minha agenda

Estes são os próximos eventos onde vou estar. Se estiveres por perto, aparece — adoro conhecer quem me lê.

21 Mar

Happiness

10h00 às 13h00 · Lisbon Digital School

25–27 Mar

Zome Summit 2026

Punta Umbría, Espanha

12–13 Abr

Happiness & Leadership Summit Lisboa

X Create HUB · Lisboa

22–23 Abr

Empack Porto 2026

Empack and Logistics & Automation · Porto

26 Abr

Feira do Livro da Ribeira Brava

Ribeira Brava · Madeira

28–29 Abr

HR Week Lisbon

HR x AI Teaming · Lisboa

📖

Livro

O Obstáculo é o Caminho

Ryan Holiday

Um livro sobre transformar adversidade em vantagem. Filosófico mas tremendamente prático. Releio um capítulo sempre que sinto que estou a resistir ao que é, em vez de usar isso como combustível.

🎬

Filme

O Método (El Método)

Marcelo Piñeyro, 2005

Um processo de seleção para um lugar de topo numa grande empresa transforma-se numa dissecação brutal da ambição, da ética e do que estamos dispostos a fazer para chegar lá. Perturbador, inteligente e impossível de parar a meio.

🎙️

Podcast

How to Be a Better Human

TED Audio Collective

Cada episódio é uma conversa curta e densa sobre como nos tornamos melhores versões de nós próprios, nas relações, no trabalho e na forma como aparecemos para os outros. Simples no formato, fundo no conteúdo.

SJ

Susan David

Psicóloga · Harvard Medical School

Susan David é uma das vozes mais lúcidas sobre agilidade emocional, o conceito que ela própria desenvolveu e que desafia a ideia de que ser forte é não sentir. O seu TED Talk é um dos mais vistos de sempre, e com razão. Segui-la é ser lembrado, regularmente, de que as emoções são dados, não fraquezas.

TED Talk · LinkedIn · Instagram

Newsletter À Segunda

Receba a próxima edição no seu email.

Formulário por ligar, em preparação.

Sem spam. Cancele quando quiser.